O que é o traço de concreto e por que ele define a resistência
O traço é a proporção entre cimento, areia e brita, geralmente escrita como 1 : areia : brita para cada parte de cimento, acompanhada da relação água/cimento. É essa proporção que determina a resistência à compressão, a trabalhabilidade e a durabilidade do concreto. Traços antigos de tabela combinavam brita 1 e 2 e não atendem mais às relações água/cimento máximas exigidas pela NBR 6118 em função da classe de agressividade ambiental.
Método de dosagem IPT/EPUSP e o estudo da UNESP/Bauru
Os traços desta ferramenta vêm do trabalho de Barboza e Bastos (UNESP, Faculdade de Engenharia de Bauru), que aplicaram o método de dosagem experimental IPT/EPUSP para construir Diagramas de Dosagem com três cimentos e brita 1. A partir das curvas ajustadas foram definidos 24 traços, com abatimento em torno de 17 cm e resistências de dosagem entre 15 e 50 MPa, usando aditivo plastificante a 1,5% da massa de cimento.
Diferença entre CP II-E-32, CP V-ARI e CP II-F-32 no consumo de cimento
Para uma mesma resistência, o tipo de cimento muda o consumo de material. No estudo, o CP II-E-32 (com escória) teve o menor consumo de cimento por m³, porque interagiu melhor com o aditivo e permitiu relações água/cimento menores. O CP II-F-32 (com fíler) teve o maior consumo, e o CP V-ARI ficou no meio, com a vantagem de altíssima resistência inicial, ganhando cerca de 35% da resistência já com 1 dia.
Cimentos pozolânicos CP IV e CP II-Z: dados de outra fonte
Como o estudo da UNESP cobre só três cimentos e brita 1, a ferramenta traz também o CP IV (pozolânico) e o CP II-Z a partir de um segundo estudo (Corrêa et al., UFPA, 2022), feito com seixo, superplastificante e abatimento de 10 cm, na faixa de 20 a 30 MPa. Como as condições e os agregados são diferentes, esses traços são apresentados em massa (kg), com a sua própria referência, e não devem ser misturados com os da fonte principal sem critério técnico.
Relação água/cimento: o fator que mais pesa na resistência
A relação água/cimento (a/c) é a razão entre a massa de água e a de cimento. Quanto menor o a/c, mais resistente e durável o concreto, e é por isso que os traços de 50 MPa têm a/c em torno de 0,40 a 0,45, enquanto os de 15 MPa chegam a 0,85 a 0,90. Como a areia da obra costuma estar úmida, a água de amassamento deve ser reduzida, colocando apenas o necessário para obter um abatimento próximo de 17 cm.
Resistência de dosagem (fcm) versus resistência característica (fck)
As resistências das tabelas são de dosagem (fcm), ou seja, a média esperada dos corpos de prova. A resistência característica de projeto (fck) é menor e se obtém por fck = fcm − 1,65 × desvio-padrão, adotando o desvio conforme as condições de preparo definidas na NBR 12655. Betoneiras pequenas cheias em plena carga e mistura malfeita resultam em resistências menores que as tabeladas.
Como reproduzir o traço no canteiro com lata de 18 litros
A receita por saco de 50 kg de cimento é a forma prática de dosar sem balança: mede-se a areia e a brita em latas de 18 litros e a água em litros. Os traços apresentados são sugestões de proporcionamento inicial, e o profissional deve fazer testes com os materiais da própria região, em especial a areia, o cimento e a interação com o aditivo, corrigindo o necessário para atingir o abatimento e a resistência esperados.
Como usar esta ferramenta
- Escolha o tipo de cimento: CP II-E-32, CP V-ARI ou CP II-F-32.
- Escolha a resistência desejada aos 28 dias (fck), de 15 a 50 MPa.
- Informe o volume de concreto em m³ (padrão 1) para escalar as quantidades.
- Veja o traço em massa e em volume, o consumo por m³ e a receita por saco de 50 kg.
Perguntas Frequentes (FAQ)
- De onde vêm os traços desta tabela?
- Os cimentos CP II-E-32, CP V-ARI e CP II-F-32 vêm do estudo de Barboza e Bastos (UNESP/Bauru), com dosagem IPT/EPUSP, brita 1 e aditivo plastificante (15 a 50 MPa). Os cimentos CP IV e CP II-Z vêm de outro estudo (Corrêa et al., UFPA, 2022), feito com seixo e superplastificante, na faixa de 20 a 30 MPa. Cada cimento mostra a sua fonte e condições.
- Por que o CP IV e o CP II-Z têm menos dados?
- Porque vêm de outra fonte, com condições diferentes (agregado seixo, abatimento de 10 cm, superplastificante) e faixa de 20 a 30 MPa. Como o estudo não publicou a massa unitária dos agregados nem as idades, mostramos as quantidades em massa (kg), sem receita em latas nem resistência por idade. Não misture números de fontes diferentes sem critério.
- Qual a diferença entre os tipos de cimento?
- No estudo da UNESP, o CP II-E-32 (com escória) teve o menor consumo de cimento por m³; o CP V-ARI é de alta resistência inicial e endurece rápido; o CP II-F-32 (com fíler) exigiu o maior consumo. Já o CP IV (pozolânico) tem baixo calor de hidratação, bom para grandes concretagens, e o CP II-Z também leva pozolana.
- A resistência da tabela é o fck de projeto?
- Não exatamente. Os valores são resistências de dosagem (fcm), a média esperada. A resistência característica de projeto (fck) é menor e se obtém por fck = fcm − 1,65 × desvio-padrão, conforme a NBR 12655. Escolha o fck alvo e trate a coluna como a dosagem necessária para atingi-lo.
- O que é a relação água/cimento (a/c)?
- É a razão entre a massa de água e a massa de cimento da mistura. Quanto menor o a/c, maior a resistência e a durabilidade do concreto. Por isso os traços mais fortes têm a/c menor. Se a areia estiver úmida, reduza a água até obter um abatimento próximo de 17 cm.
- Como uso a receita por saco de 50 kg na obra?
- Para cada saco de cimento, meça a areia e a brita em latas de 18 litros e a água em litros, conforme a receita. As latas são medidas com os materiais secos. É a forma mais prática de reproduzir o traço no canteiro sem balança, mantendo a proporção correta.
